As Minhas Sete Arrobas

O discurso político no Brasil finalmente está marcado pela divisão entre conservadores e liberais. Isso é bom. Muito bom. Digo isso porque as ideias se perdem toda vez que se “fulaniza” o debate. As discussões acabam partindo para o plano da simpatia pessoal, da retórica ou até mesmo da aparência física. Mas o que eu gosto mesmo são de ideias.

Conservar ideias só pelo fato de um dia elas terem feito sentido ou por saudosismo é algo que não faz sentido. A ciência trás novas descobertas, conceitos antigos são derrubados e a sociedade precisa andar junto.

Uma ideia conservadora repetida nesta eleição é a existência de raça. Um conceito que biologicamente não existe. A cor da pele de uma pessoa não define sua raça. Isto é, a pequena variabilidade genética entre um negro e um branco não é suficiente para se estabelecer a ideia de raça. Nós somos mais iguais do que muitos gostariam.

Enquanto isso, políticos dão declarações de que o “branqueamento da raça” está relacionado a beleza de seus descendentes e que o japonês é “uma raça que tem vergonha na cara”. É esse o nível dos candidatos conservadores que estão no centro do debate político. Como confiar que essas pessoas saberão criar políticas públicas e leis que assegurem a igualdade de tratamento e de oportunidades considerando a diversidade da população brasileira?

Assistimos também os mesmos candidatos conservadores dizendo que o afrodescendente mais leve em um determinado quilombola não pesava nem “sete arrobas” e que não serviam “nem para procriar”. Lembrando que arroba é uma medida comumente usada para se pesar animais.

As ideias conservadoras têm conservado o pior: o preconceito. As ideias liberais, ancoradas na ciência, rejeitam o conceito de raça, apontando que é o racismo que deve ser combatido. É apenas o caminho mais sensato. O que não é sensato é dizer que “o português nem pisava na África”, indicando que o mercado negreiro foi iniciativa dos próprios africanos.

O mais grave nessa discussão não é o revisionismo histórico, mas sim o fato desses conservadores não reconhecerem o próprio racismo e não perceberem nenhum problema na visão de mundo que essas declarações expressam. Eu, do alto das minhas menos de sete arrobas, não conservo essas ideias. Eu olho para a ciência. Eu olho para frente. Sobretudo, porque também olho no espelho.

 

Cidade Refugiada

A riqueza estética de Paris e a suntuosidade da finada monarquia francesa esconde o contraste com a pobreza dos refugiados que aqui pedem esmolas perto dos pontos turísticos ou no metrô. Muitas são as famílias sírias que seguram cartazes ou entregam bilhetes contando suas histórias. Para nós brasileiros, já acostumados a esse tipo de coisa, talvez isso passasse despercebido ou talvez apenas percebêssemos por erroneamente esperar não haver pedintes ou mendigos nas ruas europeias.

Dizem as personagens fictícias e não fictícias desta cidade que “o mundo anda difícil para os sonhadores”. Mas há sonho maior do que deixar seu país de origem contra sua vontade para salvar a própria vida e da sua família? Como deve ser difícil reencontrar a esposa, o marido, os filhos do outro lado da cruzada para o nada. Nos escombros da guerra a realidade se impõe sobre idealização do amor romântico nos moldes do desejo e aceitação que muitos querem. Alguns sonhadores conseguem cruzar o mar, outros ficam debaixo d’água e ainda há aqueles que ficam pelas praias levados pela maré.

Muitos dos sobreviventes escolhem Paris para morar – se é que se pode usar o termo “morar” para esta situação – outros estão aqui possivelmente tentando juntar dinheiro suficiente para chegar a Calais e então cruzar o Canal da Mancha para alcançar a Inglaterra numa aventura igualmente incerta. Em função disso, pelas ruas de Londres, o número de mendigos também aumenta a cada dia dando mais amplitude a um problema que só muda de coordenadas geográficas.

Seja pela pobreza sistêmica da América Latina ou em decorrência da estupidez da guerra, a pobreza está por toda parte nesses lugares. Nem a ostentação dos grandes palácios e jardins consegue esconder o que é de mais urgente solução. Não há real riqueza onde se tolera a pobreza. Nem aqui, nem no Brasil, nem em lugar algum. Não é possível se contentar com o que está aí.

Achado (não) é roubado

Em um post anterior abordei como a pequena e a grande corrupção do dia a dia deterioram as relações pessoais, econômicas e profissionais no Brasil. Agora é a vez de contar o que percebi sobre o mesmo assunto por meio de uma situação bastante específica em outro país.

Não há dúvida de que no Brasil impera a “Lei de Gérson” para as pequenas e as grandes situações das quais se pode tirar vantagem indevidamente. Com relação a crimes do colarinho branco, peculato e lavagem de dinheiro, há muitos países tão ou mais corruptos como o nosso, mas nas pequenas coisas do cotidiano a diferença parece ser mais discrepante.

Em janeiro de 2011 eu estava caminhando pelas de ruas de Tempe, nos Estados Unidos, com um amigo da Nicarágua procurando por um lugar para jantar. Foi então que me deparei com uma loja de livros usados. Já era um pouco tarde e a loja estava fechada, porém havia vários livros numa estante do lado de fora. Sim, os livros estavam lá organizados para quem quisesse pegar, juntamente com uma nota dizendo que, se alguém estivesse interessado em um deles, era para deixar o dinheiro por debaixo da porta.

Comentei com o meu amigo que deixar livros disponíveis daquela forma seria impensado no Brasil. Obviamente não sobraria nenhum. Todos seriam pegos sem deixar nenhum centavo por debaixo da porta. “Achado não é roubado” certamente seria uma boa racionalização para desculpar o ato. A educação no Brasil é falha tanto sob o aspecto do ensino, quanto sob o aspecto cultural. O problema do ensino pode ser resolvido com investimentos em escolas, professores e metologias, mas no aspecto cultural a solução é ainda mais difícil e demorada. Provavelmente daqui a 50 anos teremos uma população melhor capacitada, mas ainda sem educação. Para resolver o problema cultural precisaríamos de várias gerações e uma reengenharia em como nossa sociedade funciona.

Recomendo fortemente a palestra do Fábio Barbosa no TEDxSP 2009 sobre “Ir bem em um país que vai mal”. Ele aborda principalmente o caso brasileiro, mas toca também em como a própria sociedade norte-americana sofre dos mesmos problemas. Entretanto, no caso deles, ao invés de isso se manifestar nas pequenas coisas do dia a dia como a compra de um livro, frequentemente acontece na falta de consciência na forma como se fazem negócios. Basta lembrar a crise iniciada em 2008, resultado da falta regulação do mercado financeiro, da ganância e especulação. O fato é que tanto aqui como lá, não pode é ficar a certeza da impunidade. Embora a intensidade seja diferente, um livro ou um milhão de dólares roubados, a canalhice é a mesma. As sociedades devem se organizar para primeiramente evitá-la e em segundo lugar puni-la. Entretanto, parece que o Brasil ainda está longe do ideal tanto na punição, mas principalmente na prevenção. Transparência.

Uma só América Latina?

Uma das coisas que sempre me intrigou na América Latina foi a divisão entre parte hispânica e a lusitana. Em outras palavras, a distância e ao mesmo tempo a proximidade cultural entre o Brasil e os demais países da região. A questão mais notória é até que ponto a diferença linguística nos separa dos nossos vizinhos.

Imagine que você está em uma conferência dita “latino-americana” fora do Brasil. A maioria dos participantes fala espanhol ou castelhano, como preferirem, quaisquer outros participantes de fora da região falam inglês e ainda há um terceiro grupo: os brasileiros, os quais normalmente falam um pouco de inglês, mas dificilmente entendem e falam espanhol. Ironicamente, em uma conversa entre pessoas de cada um dos 3 grupos, todos acabam falando inglês. Será que essas dificuldades nos diferem a ponto de não nos identificarmos com nenhuma das partes?

Dizer que a mera questão idiomática impede de nos identificarmos como cidadãos latino-americanos é certamente um erro. Se fosse assim, eu certamente não me identificaria com um gaúcho, que é tão brasileiro quanto eu, mas que em alguns momentos parece falar um idioma completamente diferente do meu mineirês de paranaense. Quem defende que somos uma cultura completamente diferente e incapaz de se integrar ao restante do continente, deveria observar as cômicas tentativas de conversa entre um brasileiro e um chileno por exemplo. As dificuldades de comunicação tornam tudo mais engraçado e, no final das contas, não impedem que as pessoas se entendam. Sem contar que o mesmo pode acontecer dentro do Brasil. Lembro de estar em um taxi em Porto Alegre, com dois baianos que estavam na mesma conferência que eu. Um deles, mais viajado, traduzia o que o outro falava para o taxista gaúcho. Isso não nos impediu de chegarmos no nosso destino.

É preciso reconhecer que diferenças de maior ou menor grau existem até mesmo dentro de uma cidade ou diferentes grupos de amigos. Ser considerado latino-americano ou não, nem é o mais relevante. A relevância reside no reconhecimento de que individualmente somos parte de um todo e que felizmente há diversidade suficiente para conseguirmos rir das diferenças uns dos outros.

De onde você olha?

Certamente uma viagem por si só não muda a visão de mundo nem a ideologia de ninguém, mas ela pode oferecer uma perspectiva diferente em relação aos problemas que já sabemos que existem.

Viver em um país considerado “emergente” com vários aspectos longe da perfeição e visitar um país mais desenvolvido, deixa uma certa decepção em relação ao que temos por aqui. Por outro lado, a visita a um país menos desenvolvido traz a sensação justamente contrária. Esse foi o maior contraste que percebi ao conhecer os Estados Unidos e o Panamá.

A infraestrutura norte-americana é excelente e, infelizmente, estamos muito distantes do melhor que há por lá. É possível perceber que muitas coisas bem feitas não são apenas resultado do dinheiro, elas simplesmente são bem pensadas. Tanto o embarque como desembarque no aeroporto são simples, as funcionárias são prestativas, as estradas são bem sinalizadas e as pistas dos rodovias são enormes e de fácil acesso. Infelizmente não posso dizer o mesmo do serviço de imigração, que é bastante burocrático e paranoico.

Curiosamente, no Panamá há uma grande influência dos Estados Unidos. Por exemplo, o esporte preferido é o beisebol e há jornais escritos tanto em espanhol quanto em inglês. No entanto, os carros e caminhões são notadamente mais antigos. Apesar disso, muitos carros possuem câmbio automático e a maioria é de origem asiática. A cidade do Panamá logo à beira do mar exibe grandes edifícios, um deles pertencentes a Donald Trump, numa bela vista digna das maiores cidades do mundo. O contraste dos prédios modernos com a beleza do Oceano Pacífico cria um cenário lindo, um dos mais bonitos que já vi. O aeroporto é enorme e bastante adequado, mesmo tendo um tráfego alto, por ser um hub no qual passam várias rotas do continente. Apesar da beleza aparente, ao entrar um pouco mais na cidade, fica visível que o Panamá é um país que tem os mesmos problemas de qualquer outro país em desenvolvimento e precisa andar um longo caminho para resolver os problemas existentes. Isso vale tanto para a questão social quanto para a infraestrutura. A disposição da cidade é muito parecida com o Rio de Janeiro. Beleza natural e riqueza à beira do mar e a pobreza logo atrás.

Olhando o país centro-americano como brasileiro, posso reconhecer que o Brasil caminhou muito, mesmo que tenhamos muitos problemas ainda. Quando visitamos um país que ainda não chegou no nosso patamar econômico, vemos o quanto já nos desenvolvemos e melhoramos a vida da nossa população. Até mesmo o nosso transporte público parece bom frente ao panamenho. Por outro lado, quando olho para os modernos trens leves sob trilhos de Tempe, no Arizona, vejo que o Brasil ainda está muito aquém do nível ideal.

Tanto nos Estados Unidos como no Panamá fui muito bem tratado e fiz amigos em ambos países. Como disse no post anterior, as pessoas não são tão diferentes assim. Por isso, seja no Brasil, na África, no Panamá, na Europa ou nos Estados Unidos, todos merecem as mesmas oportunidades e uma qualidade de vida decente. O que ficou claro é que tudo é uma questão de esfera e perspectiva. Não há lugar perfeito, não há segredo. O que existe é trabalho, educação e tempo. Assim como nós, os panamenhos estão lutando duro para melhorar o sistema de transporte deles e o país como um todo. Da mesma forma, os norte-americanos estão lutando para colocar a economia deles de volta aos trilhos. Há quem torça contra, por antiamericanismo de um lado ou preconceito contra latinos de outro. Essas são certamente são as perspectivas erradas. O mundo é um só. O sucesso deles é o sucesso do Brasil, assim como o fracasso.

Viagens, diferenças e igualdades

Nos últimos anos tive a oportunidade de viajar para alguns lugares como voluntário do Projeto Fedora, mas como essas viagens sempre envolveram conferências e fóruns, os relatos aqui no blog sempre foram mais sobre os eventos e pouco sobre os lugares em si. Agora que esta fase ficou para trás e já com distância suficiente dos fatos e vivências, achei uma boa ideia contar sobre o que percebi nas viagens que fiz.

Sou um péssimo observador de comportamentos e pessoas, portanto minha intenção não é falar sobre elas especificamente mas sim sobre aspectos mais gerais como cultura, economia, infraestrutura e condições sociais. Cá pra nós, vou adiantar a minha conclusão sobre as pessoas: individualmente somos tão parecidos que ficaria extremamente chato abordar esse assunto. O que nos difere são características tão pontuais que, apenas no conjunto, fazem a diferença.

A grande vantagem de viajar para conferências é que a experiência é muito diferente do turismo comum. Você simplesmente não fecha um pacote e vai com a mesma turma do seu voo conhecer lugares turísticos, visitando-os apenas para tirar fotos e depois voltando diretamente para o hotel. Numa conferência, é possível conhecer várias pessoas do lugar visitado e também de outros lugares. Isso permite conhecê-las, ajudá-las, ser ajudado, em alguns casos até visitar a casa delas e ir ao bar onde elas sempre vão. É uma imersão muito mais rica, mas claro que essa experiência também é possível numa viagem com o único propósito de fazer turismo, basta planejá-la com este intuito.

Talvez você esteja pensando que haja uma contradição entre o que eu disse anteriormente a respeito das pessoas e sobre como faz diferença conhecê-las. O meu ponto é que seja um mineiro, um paranaense, um chileno ou um americano, não importa, todos têm anseios, objetivos, gostam de umas coisas, odeiam outras, passam por bons e mal momentos, querem ser felizes ou pelo menos ter uma vida digna. As maneiras de se alcançar tudo isso de fato variam, em parte pela personalidade de cada um, em parte pelo contexto em que elas estão inseridas.

Um turismo de mera visitação pode oferecer uma visão artificial do lugar, há detalhes que não podem ser entendidos apenas pelas construções ou pela beleza natural. Esses detalhes estão no cotidiano das pessoas e, por sua vez, refletem na economia, na infraestrutura e na sociedade como um todo. Em contrapartida, todos esses grandes aspectos também refletem no cotidiano de cada um. Certamente, conhecer lugares e pessoas durante uma semana em uma conferência não quer dizer que eu tenha conhecido tudo a fundo, mas permitiu uma percepção razoável da realidade do local, principalmente quando estive envolvido na organização dos eventos. Não farei um post específico de cada lugar, ao invés disso eles serão sobre aspectos que percebi ou sobre o contraste que há entre dois ou mais lugares. Nos lemos no próximo post!

Amor que salva a corrupção

Menos de um mês para as eleições municipais e não é de hoje que os candidatos estão poluindo nossas ruas e nossos ouvidos. Além disso, é só mais uma época em que os cidadãos corruptos reclamam de seus políticos igualmente corruptos. Um bom exemplo disso é uma das minhas personagens políticas favoritas: Weslian Roriz. Quem não se lembra dela?

Obviamente ninguém se lembra de Weslian. Ela é mais conhecida por ser a mulher de Joaquim Roriz, ex-governador do Distrito Federal, que depois de ser acusado de corrupção desistiu de sua candidatura e a empurrou sem paraquedas para substituí-lo na campanha eleitoral. O caso foi amplamente noticiado devido a total falta de traquejo político de Weslian, que em meio a sua confusão mental em um debate, nos presenteou com sua famosa frase: “Eu quero defender toda aquela corrupção.”

O aspecto interessante de Weslian Roriz não é ela em si, muito menos sua cômica performance política, mas sim o fato haver várias “weslians” por aí. Infelizmente vivemos num país no qual a leniência com atitudes temerárias é geral. Weslian é um clichê. É a mulher que defende o marido corrupto haja o que houver. Na verdade ela poderia ser qualquer mulher que defenda o amigo, namorado, amante, chefe, irmão ou correligionário. Sem dúvida ela poderia também ser um homem que faz vistas grossas para a esposa que sorrateiramente desvia dinheiro público para complementar o “orçamento familiar”.

Fatos como esses podem ser encontrados em maior ou menor grau no nosso dia a dia, mas Weslian nos deixou uma lição: o amor está acima de tudo. Pelo menos o que ela chama de amor. Não há dúvidas de que ela ama Joaquim. O amor de Weslian é vazio de ética, coerência e comprometimento com o restante da sociedade. Para ela não importa quantas pessoas Joaquim tenha deixado na mão durante sua carreira. Weslian não tem qualquer empatia por elas. Talvez, por desinteresse, ela nem soubesse das mutretas do marido. O fato é que ficar sabendo pela imprensa de tudo o que acontecia debaixo do seu nariz não fez diferença. Também não fez diferença a impugnação da candidatura dele com base na Lei da Ficha Limpa. Dentro de casa, o ex-governador pode até mesmo ser um bom marido, o que não o dissocia do homem desonesto que é fora dela. Na verdade, o nobre Joaquim deve ser um homem incompreendido pela sociedade. As acusações certamente são invencionices de seus adversários políticos e do Tribunal Superior Eleitoral. Entretanto, caso sejam verossímeis também não importa. Para Weslian, ele já deve ser um homem refeito. Afinal de contas todo mundo merece uma 13ª chance na vida. Roriz cedeu sua candidatura para a mulher de maneira relutante. Isso porque ele é o clichê análogo a Weslian. Homens como ele, num primeiro momento, negam veementemente o erro, dizem que não foi bem assim, que não é o que parece. Somente desistem ou pedem desculpas quando são pressionados ou instruídos para tal. Sacrificam o ego no curto prazo para inflá-lo no longo prazo, mas ainda são incapazes de reconhecer os erros por si sós.

Como um de nossos piores aspectos culturais, a corrupção permeia e deteriora as relações pessoais, profissionais, econômicas e políticas. Weslian seguramente não sabe que corrupção passiva também é crime, que ela é tão errada quanto ele, que não é difícil dizer quem ela é pela análise de quem ele é. O casal Roriz é só uma versão exacerbada do que acontece por todo país. São uma versão do sujeito que não cumpre com suas obrigações profissionais, do camarada que coloca uma “TV a gato”, do “cidadão” que joga lixo na rua, do hipócrita que reclama dos políticos mas não olha para sua própria corrupção. Como pessoas assim terão moral para educar os próprios filhos? Não sei, mas eles o farão mesmo assim. Os Roriz conseguiram. Felizmente vivemos numa democracia e, seja na nossa vida pessoal ou política, podemos escolher tornar essas pessoas partes da nossa vida ou não. Bom voto!

Luciana Gimenez, Dorgas e o Rock n’ Roll

Por que não ser um grande fã de forró, funk, música clássica ou outro estilo musical e ser justamente fã de rock? Os motivos estão diretamente ligados ao motivo pelo qual hoje é comemorado o Dia Mundial do Rock. No dia 13 de Julho de 1985 foi realizado um grande festival, chamado LiveAid, que tinha como principal objetivo arrecadar fundos para combater a fome na Etiópia. Esse dia passou a ser considerado então como o Dia Mundial do Rock.

Alguém poderia se questionar se não teria sido melhor escolher o dia no qual se plantou a maior quantidade de maconha, o dia em que os hippies mais usaram LSD ou o dia em que Luciana Gimenez deu a luz ao filho de Mick Jagger. Na verdade nenhum desses dias simbolizaria o motivo pelo qual eu e várias outras pessoas gostam de rock. O conjunto de atitudes que comemoradas neste dia não são as drogas alucinógenas ou o sexo com modelos de inteligência duvidosa. Hoje é celebrado um som que, quando o ouvimos, sentimos o peso da história. Um som no qual os autores depositaram suas ideias, ideologias e desejos de mudança. Embora nem todas as músicas sejam carregadas de política ou ideais, o que vale é o que está por trás. Definitivamente não sou um saudosista. Admiro as bandas da atualidade, gosto de sintetizadores, curto as misturas com a música eletrônica e admiro guitarristas que inventam diferentes técnicas usando combinações de novos pedais e efeitos. Não importa, desde que essa essência continue presente.

E o que aconteceu depois do LiveAid? Os organizadores descobriram que todo o dinheiro arrecadado foi torrado em pouco tempo devido à dívida externa etíope. Houve uma correção de rumo e o rock n’ roll passou a ajudar de outra maneira. O mandato dado aos artistas pelo público passou a ser usado para pressionar políticos, líderes globais e mobilizar voluntários.

O rock é uma música significativa. A graça não está só na música às vezes lenta e emocionante ou frequentemente enérgica e contagiante. A graça está também no contexto, nas ideias, na história que foi feita e na construção de um futuro melhor que tem como trilha sonora riffs e letras geniais. Rock n’ roll é o ímpeto de promover mudanças. Seja na sua própria vida, na dos outros ou na sociedade.

José Saramago

Um dia desses estava pensando qual seria o próximo livro que eu iria ler. O nome de Saramago obviamente veio à cabeça pois sempre fui um grande fã. Logo pensei em procurar o último livro que ele publicou, mas então lembrei que não deveria haver nada de novo pois ele faleceu em 2010. Foi então que caiu a ficha. Saramago não publicará mais nada.

O escritor português, ganhador do Prêmio Nobel de Literatura, foi uma das minhas leituras preferidas a partir da adolescência. Polêmico, Saramago sempre foi um homem capaz de expressar claramente suas opiniões e demonstrá-las de maneiras não tão óbvias em seus livros. Ele fugiu da hipocrisia – muito repetida pelos que criticam a falta de religiosidade dos ateus – de que ele se arrependeria em seu leito de morte. Saramago era sincero com seu ateísmo. Certa vez disse que procurava todos os dias por um sinal da existência de Deus, mas nunca o tinha encontrado e morreu assim.

Saramago por Bottelho

Ainda que fiel às suas convicções “religiosas”, era nobre o suficiente para saber mudar de ideia. Inicialmente criticava a reforma da língua portuguesa a qual acabou alterando mais o português de Portugal do que o brasileiro. Em um segundo momento, Saramago chegou à conclusão de que a reforma unificava mais o idioma e que isso era uma coisa boa, já que os países lusófonos poderiam trocar e publicar informações de maneira mais padronizada.

Obviamente Saramago não era perfeito. Era apaixonado pelo comunismo, mesmo este tendo representado grandes atrocidades cometidas pelos seus intransigentes seguidores. É provavelmente aqui onde eu e ele nos distanciamos. Não que ele fosse a favor da opressão e dos assassinatos em massa, mas certamente a empírica mostrou que Saramago estava errado, inclusive em relação aos aspectos sociais e econômicos do comunismo.

Saramago afirmava que não era depressivo, mas admitia ser uma pessoa melancólica, o que era bastante perceptível na sua fala e no jeito de ser. Ele realizou um sonho dele e meu também. Casou-se com alguém que era apaixonada pela palavra, assim como ele era. Vindo de uma família de agricultores, ganhou o mundo com seus estilo de escrita original, mas nunca deixou de lado o conhecimento passado durante sua criação. Gostava de citar uma frase de sua avó Josefa, que cai muito bem aqui neste blog: “O mundo é tão bonito, e eu tenho tanta pena de morrer!”.

50

50. Contando com esta publicação, essa é a exata quantidade de posts até agora neste blog. No início não achei que essa empreitada renderia tanto, nem que duraria o tempo que tem durado, muito menos que seria visto e comentado por tanta gente bacana de todas as partes dos mundo.

Hoje é interessante olhar para os posts anteriores e ver quanta coisa já postei por aqui. Na verdade não sei onde arrumei tanto tempo para escrever tanto. Se bem me lembro não tinha esse tempo todo disponível e ainda não tenho.

De uma maneira meio tortuosa, o blog acabou sendo o melhor relato das coisas mais importantes que fiz nos últimos dois anos. Agora com um novo tema, a intenção é continuar mantendo o foco, que é basicamente não ter foco nenhum. Assuntos interessantes que mereçam minha inócua opinião ou acontecimentos irrelevantes do interesse de poucos continuarão aparecendo por aqui, não se preocupem.

Os últimos 49 posts foram apenas um aquecimento. O melhor ainda está por vir!