Cidade Refugiada

A riqueza estética de Paris e a suntuosidade da finada monarquia francesa esconde o contraste com a pobreza dos refugiados que aqui pedem esmolas perto dos pontos turísticos ou no metrô. Muitas são as famílias sírias que seguram cartazes ou entregam bilhetes contando suas histórias. Para nós brasileiros, já acostumados a esse tipo de coisa, talvez isso passasse despercebido ou talvez apenas percebêssemos por erroneamente esperar não haver pedintes ou mendigos nas ruas europeias.

Dizem as personagens fictícias e não fictícias desta cidade que “o mundo anda difícil para os sonhadores”. Mas há sonho maior do que deixar seu país de origem contra sua vontade para salvar a própria vida e da sua família? Como deve ser difícil reencontrar a esposa, o marido, os filhos do outro lado da cruzada para o nada. Nos escombros da guerra a realidade se impõe sobre idealização do amor romântico nos moldes do desejo e aceitação que muitos querem. Alguns sonhadores conseguem cruzar o mar, outros ficam debaixo d’água e ainda há aqueles que ficam pelas praias levados pela maré.

Muitos dos sobreviventes escolhem Paris para morar – se é que se pode usar o termo “morar” para esta situação – outros estão aqui possivelmente tentando juntar dinheiro suficiente para chegar a Calais e então cruzar o Canal da Mancha para alcançar a Inglaterra numa aventura igualmente incerta. Em função disso, pelas ruas de Londres, o número de mendigos também aumenta a cada dia dando mais amplitude a um problema que só muda de coordenadas geográficas.

Seja pela pobreza sistêmica da América Latina ou em decorrência da estupidez da guerra, a pobreza está por toda parte nesses lugares. Nem a ostentação dos grandes palácios e jardins consegue esconder o que é de mais urgente solução. Não há real riqueza onde se tolera a pobreza. Nem aqui, nem no Brasil, nem em lugar algum. Não é possível se contentar com o que está aí.

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