Bagunça pública universitária

Eu provavelmente poderia esquecer tudo o que vou escrever aqui, começar a dizer que a minha graduação foi uma maravilha e que tudo foi perfeito. Isso seria desonesto por um motivo muito simples: não foi. De fato, o curso foi muito bom e estou convencido que em Minas Gerais não há universidade melhor que a UFMG na minha área. O problema é que isso não é o suficiente. A educação no Brasil é uma bagunça e ser melhor do que a média não quer dizer muita coisa.

Como toda instituição pública, a UFMG tem sérios problemas de burocracia, desorganização e falta de comprometimento dos seus profissionais. Sobre este último ponto, não posso deixar de exemplificar o  comprometimento de alguns professores. Durante a minha graduação houve um professor que deu aula para vários colegas meus e simplesmente não foi dar a prova final. Sim, ele esqueceu e não deu satisfação. Isso chegou a acontecer comigo também, mas felizmente meu professor teve a hombridade de aparecer e explicar porque não pôde aplicar a prova. Houve professor também reprovando 90% da turna e depois expulsando dos alunos da sala dele. Fora professor que já deu aula descalço e outro que apresentava slides com erros grotescos de português.

E claro, tem a palhaçada dos próprios alunos. Sinceramente não dou a mínima para como os outros levam a vida acadêmica deles desde que não prejudiquem outras pessoas. O problema é quando alguém tem que fazer alguma coisa, não faz ou faz mal feito, e acaba prejudicando quem não tem nada a ver com isso. Prejudicar os outros nada mais é que desonestidade e falta de caráter. Outro aspecto importante é que tem muita gente que quer estudar em faculdade pública sem que haja um preço. Gente que reclamava que tinha que pagar 200 reais por ano para a FUMP. Nem de longe o modelo da FUMP é o melhor, mas chegaram a falar que a Fundação estava tendo lucro com o dinheiro que era pago, o que simplesmente é ignorar que ela precisa ter dinheiro disponível para atingir seus objetivos no longo prazo, mesmo sendo uma instituição sem fins lucrativos, ou seja, nem é lucro. Não sei de onde os DCEs da vida tiraram isso.

Os pior é que a qualidade dos professores e alunos é o menor dos problemas. Há excelentes professores na UFMG e na minha opinião eles são maioria. Há professores e alunos bons e ruins em todas as instituições, cada um com seu estilo, o que garante a diversidade. O problema real é a desorganização. Uma vez, por exemplo, mudaram o horário de uma disciplina já com ela em curso. O resultado? Tive que fazer duas matérias ao mesmo tempo. Isso mesmo, duas matérias no mesmo horário. Outro fato relevante que não se passou comigo, mas que demonstra a desorganização, é que certa vez o colegiado cometeu um erro ao fazer a requisição de uma matéria para outro departamento. No final das contas a matéria não estava disponível para matrícula e ficou assim o semestre inteiro. Isso sem falar na dificuldade para fazer matrícula em matérias eletivas e optativas. Já fiz matrícula em uma disciplina optativa e foi aceita normalmente. Um tempo depois minha matrícula nessa mesma matéria foi sumariamente cancelada. Disseram que acabaram decidindo que ela seria apenas para a pós-graduação. Na teoria, a ideia de diversificar a grade é muito boa, entretanto é mal implementada. É difícil conseguir vagas, é necessário fazer uma pré-pré-matrícula a parte e não é claro como fazer para obter uma formação complementar. Ainda há uma série de assimetrias como a demora na contratação de professores levando a longos períodos sem aula, falta de estacionamentos e segurança deficiente no campus.

Não tenho dúvida que as universidades públicas do Brasil ainda são, no geral, melhores que as particulares e que isso continuará por um bom tempo. A questão é que os problemas mais graves não dependem de dinheiro para serem solucionados e não são relativos à qualidade dos alunos ou professores. Esses problemas simplesmente não têm a atenção devida, seja por falta de vontade para resolver, comodismo ou pura falta de visão.

As 63 frases que marcaram a minha graduação

Revivendo uma ideia do meu antigo blog, aqui está o resultado da minha luta psicológica para encontrar uma epígrafe para a minha monografia. Infelizmente, dentre tantas frases geniais, só posso escolher uma. Nesse processo, foi Impossível não recordar as várias frases que marcaram a minha graduação em fim iminente. São tantas que não espero que ninguém chegue ao final. Aí vão elas:

“Dá lucro? (Aplausos)” – Fera

“Roda o PDCA.” Roncalli

“Como diria lá na escola: ‘De todos os pontos ele não tem nenhum.'” – DMF sobre Roncalli

“Pirex!!!” – Marina me chamando

“Como diria lá na escola: ‘Ou é pangaré ou é cavalo de corrida.'” – DMF sobre candidatos a vagas de emprego

“…” – Cara de Default mudo sobre um furador de ovo

“E agora? E agora? E agora? E agora? E agora? E agora?” – Minininho enchendo o saco

“Meu coração quase parou!” – Fera descrevendo a correção de uma de suas provas

“Sinal amarelo!” – Pequeno Pato

“Como diria Chico Buarque de Holanda: ‘E agora José?'” – DMF sobre o poema de Carlos Drummond de Andrade

“Pirecolino!!!” – Marina me chamando

“Ultimamente não tenho dado nem pro meu marido.” – EP quando retoricamente perguntada se poderia dar alguma questão da prova antecipadamente

“Não.” – Cara de Default quando perguntado se lembrava de mim duas horas depois de me ver na sala.

“Como assim ele não lembra de você?” – Mex sobre a frase acima, atônito com a amnésia instantânea

“Sinal vermelho!” – Pequeno Pato

“Não me venha com chorumelas!” – Marina, vindo a mim com chorumelas

“É bater o martelo.” – DMF sobre?

“Onde estão as suas duas esposas?” – Daniel sobre uma época em que eu tinha duas esposas

“Aoshi Maaaaacho” – Osório sobre o Maaaaacho

“Pra mim você não existe.” – Lula

“MAS É COMPROVADAMENTE NP-COMPLETO? COMPROVADAMENTE? COMPROVADAMENTE? – NP-Completo sobre NP-Completo

“MAS COMO ASSIM EU NÃO POSSO TER UM NOTEBOOK QUÂNTICO?” – NP-Completo revoltado com seu sonho distante de consumo

“Porra, Igor. Para de viajar!” – Mex sobre mim

“Pirudo!!!” – Marina me chamando. Essa eu deixo aberta a interpretações.

“Faz sentido isso?” – Pequeno Pato sobre o que nunca fez sentido

“De 10 a 20.” – Osório quando perguntado retoricamente sobre quantos milímetros iriam chover. Sim, ele sabia.

“Você não acha que as pessoas podem mudar?” – Senhora Default tentando justificar o injustificável sobre Cara de Default.

“…” – Cara de Default depois de ser epicamente trollado pelo Lula, provando que as pessoas podem mudar sim. Para pior.

“Tem que seguir o processo.” – CIP sobre todas as coisas do mundo

“Volta na definição.” – JM sobre todas as dúvidas do mundo

“Pirequinho!!!” – Marina me chamando

“Deixar dois aqui.” – Osório pagando as dívidas

“Epígrafes são demasiadamente piegas.” – Bruna agora mesmo no meu Facebook

“Você é um reclamão!” – Outro JM, esse armado com um guarda-chuva

“Eu achei que era comigo.” – Cara no ponto de ônibus ao achar que era pra ele o tchau que era pra mim

“Eu programo em .NET desde 2002.” – Cara de Default, mostrando que o programador e a linguagem se merecem

“Então me envia o seu currículo.” – NP-Completo para Cara de Default, mostrando que as pessoas se merecem

“É… não dá mais pra mim.” – Roncalli constatando o óbvio

“Eu já sabia.” – DSMS sobre cômicas revelações

“Igorino!!!” – Marina me chamando

“CÊ TÁ LOUCO?” – Alberta assustando outra mulher

“XMLiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii” – Freddie Mercury Prateado

“Uma árvore caiu em cima do seu carro? E o que eu posso fazer?” – MJ no telefone no meio da aula

“Você nunca vai esquecer disso?” – Bruna sobre a minha pior e única ida ao CEU, pela qual eu a culpo até hoje e seguirei culpando.

“Essa é a Lei de Gérson.” – DMF sobre o Brasil.

“Não tem como ele correr atrás de mim.” – Aparecido, antes de roubar uma lista exercício do monitor deficiente. É, pois é, Lei de Gérson.

“Pirão!!!” – Marina me chamando

“Cê tá aí né?” – Osório diariamente

“Eu sou assexuado.” – Shiryu

“Proibida a entrada de alunos.” – Frase na porta do colegiado

“Nossa, mas você hein. Sai de perto de mim.” – DSMS sobre meu azar potencialmente contagioso.

“Não acredito que você fez isso comigo!” – Marina depois de eu ter prometido um pedaço do chocolate e posteriormente tê-lo comido todo

“Igor!!!” – Marina me chamando no momento de raiva

“Pilantra!!!” – Marina reforçando o ponto

“Vocês sabiam que o gosto amargo do chocolate tem relação com o teor de cacau?” – Dudu

“CLARO QUE EU SEI!” – Aparecido respondendo à pergunta acima

“Meu pai era mafioso.” – DMF sobre suas origens

“Tenho certeza que é você quem escreve isso.” – Bruna me acusando de ser a identidade secreta do Cão da Depressão

“Pirado!!!” – Marina me chamando

“Arlei!” – Harlley corrigindo o professor sobre a pronúncia do nome dele pela 123ª vez na vida

“Você não tem cara de quem trabalha.” – Marina sobre o vagabundo que escreve mais de 60 frases no blog, mesmo antes dele ter feito isso

“Fica assim então.” – Osório diariamente

“Como diria Juca Chaves: ‘Tchau'” – DMF

Atualização: parem de ficar me lembrando e dando ideias! Eram 57 frases e já estamos em 63! :)

U2x2

Depois de 5 anos voltei ao Morumbi. Eles também. São poucas coisas as quais eu gosto de repetir, mas um show do U2 está entre elas. É incrível quanto tempo se passou desde o último show e como tantas coisas mudaram e outras nem tanto. Uma coisa que certamente não mudou foi a primazia da banda ao vivo. Particularmente, esperava um U2 mais envelhecido e cansado, mas o que eu vi foi uma banda mais uma vez criativa, emocionante e ciente do contexto onde eles estavam se apresentando.

Tive a oportunidade de ouvir “Stuck In A Moment” outra vez ao vivo. Quem já leu posts anteriores provavelmente já sabe o tanto que gosto dessa música. Entretanto, não foi só isso. Felizmente eles tocaram várias músicas que não tive a oportunidade de ouvir da outra vez, como “Even Better Than The Real Thing”, “I Will Follow” e, quem diria, “In A Little While”, além é claro das músicas recentes do “No Line On The Horizon” como “Magnificent” e “Moment Of Surrender”. Essa última, com direito a uma homenagem às vítimas do massacre na escola Tasso da Silveira (bela pronúncia, Bono!) no Rio de Janeiro. Isso não foi uma surpresa para quem conhece o U2, mas não deixou de ser emocionante.

A surpresa mesmo ficou por conta dos versos de “Carinhoso” de Pixinguinha, música do início do século passado, que foi recitada por uma menina aleatória da plateia. Ainda que eu não tenha visto esses versos na letra original, Bono e ela os ficaram repetindo até que fossem emendados com os primeiros acordes de “Beautiful Day” de maneira brilhante. Acho que não tinha coisa melhor que eu poderia ter ouvido, somando-se os versos da antiga música em português aos versos do clássico recente em inglês. Simplesmente encaixou.

Com relação às diferenças entre o show da turnê anterior e desta turnê, a que é mais visível é o palco. Eu poderia dizer que o palco é um show a parte, mas não é. Já num estágio avançado da turnê, a banda parece ter uma boa noção de como tirar o melhor proveito dele e, apesar da megalomania, ela e o seu mostro se mostraram bastante entrosados. Isso fez toda a diferença, porque o leiaute do palco anterior, apesar de também enorme, era muito parecido com o utilizado por outras bandas como o Coldplay ou em festivais. Dessa vez foi um elemento completamente inovador, que facilitava acompanhar os detalhes do show, fora os efeitos desconcertantes.

Como não podia deixar de ser, nem tudo foram flores. Houve problemas para quem comprou ingressos no Mastercard Showpass, incluindo para mim. Também não foi dessa vez que ouvi o U2 tocando “Ultraviolet”, nem o Muse tocando “Resistance” no show de abertura. Houve quem não gostou da abertura, mas o Muse começou a noite muito bem, com uma entrada ensurdecedora. Achei legal também a gratidão do Bono com elogios à banda inglesa. Outro aspecto interessante foi ter tocado Demônios da Garoa como uma das músicas introdutórias antes de começarem os shows. Além disso, entre o show do Muse e do U2 tocou “Lotus Flower” do Radiohead. Lembro bem que no show do Coldplay colocaram, além de “Danúbio Azul”, “Magnificent” do próprio U2 em alto e bom som. Sempre legal ver essa camaradagem entre as bandas.

Nesse meio tempo entre o show de abertura e o show do U2, aproveitei para gravar um vídeo (mal feito, é lógico) com um giro de 360° na U2 360° no Morumbi:

Foi uma viagem a São Paulo cheia de azares cômicos, o que não podia ser diferente, comigo e com o Daniel nos mesmo lugares ao mesmo tempo. São Paulo como sempre foi uma cidade boa de se visitar, apesar da chuva e da sujeira do centro da cidade. Foram passeios ótimos no Museu da Língua Portuguesa, no Mercado Municipal e na onipotente Avenida Paulista. Não importa quantas vezes você vá a São Paulo, é uma cidade na qual sempre há algo ainda por conhecer. Sempre fica a vontade de voltar. “São Paulo da garoa, São Paulo terra boa” — cantou o próprio Bono, que fez parar do chover literalmente ao entrar no palco.

Ficamos devendo o chiclete de uva da Bruna. Chiclete esse que eu insisto que não existe, apesar das evidências não muito concretas que provam o contrário!

(…)
Mas mesmo assim, serei feliz
Bem feliz
Serei feliz
Bem feliz
Serei feliz

The heart is a bloom, shoots up through stony ground
But there’s no room, no space to rent in this town
You’re out of luck and the reason that you had to care,
The traffic is stuck and you’re not moving anywhere.
You thought you’d found a friend to take you out of this place
Someone you could lend a hand in return for grace

It’s a beautiful day, the sky falls
And you feel like it’s a beautiful day
It’s a beautiful day
Don’t let it get away
(…)

Carinhoso + Beautiful Day

Um ano de blog

Faz exatamente um ano que publiquei o primeiro post desse blog. Olhando para a publicação inicial vejo que consegui manter a linha do que eu tinha em mente há um ano atrás. Mais do que isso, consegui me manter escrevendo durante um ano inteiro, com posts bem distribuídos ao longo do tempo. No início eu achava que isso seria difícil de acontecer, pelo fato do blog nem de longe ser uma prioridade para mim.

Não vou me alongar escrevendo um típico post com uma retrospectiva ou reflexão de fim de ano. O que aconteceu e é digno de nota pode ser encontrado nos arquivos aí ao lado. O conteúdo reflete várias coisas legais que aconteceram nesse período, inclusive as mudanças de curso. Visualmente pouca coisa mudou por aqui. Aceitei uma sugestão de layout que a princípio não tinha me agradado muito, mas com o tempo aprendi a gostar dele e o feedback foi bastante positivo. Com o tempo fiz algumas mudanças na aparência e incluí alguns recursos novos, mas mantive o tema original com o intuito de manter uma boa lembrança e um visual consistente. Não pretendo mudar esse aspecto no curto prazo, mas quando chegar a hora de reformular tudo, quero encontrar um tema que seja tecnicamente melhor. Aceito sugestões!

Esse definitivamente não é um blog popular, mas estou satisfeito com as estatísticas desse primeiro ano. Foram 46 comentários e aproximadamente 1.461 visitas provenientes de vários países. 2/3 dos visitantes foram do Brasil e o restante de outros 60 países, sendo os dos Estados Unidos, Portugal, Polônia, Alemanha, Espanha e Chile os mais assíduos.

Obrigado a todos que têm visitado esse blog e tirado um tempo para ler e comentar as bobagens que escrevo aqui. A pauta para os próximos meses será bastante interessante e terei coisas legais para publicar. Portanto, continuem sintonizados neste canal!

O que eu não posso deixar para trás – parte 2

No post anterior já contei que descobri o álbum “All That You Can’t Leave Behind” do U2 através da música “Stuck in a Moment You Can’t Get Out Of”. Neste post darei as minhas impressões sobre as outras faixas do disco.

Depois de uma pequena novela para comprar o CD, percebi que o primeiro single, “Beautiful Day“, tinha passado despercebido por mim. O mais interessante dessa música é a volta da Gibson Explorer do Edge. Essa é uma guitarra característica do início da banda, mas que se encaixou muito bem no novo som. A terceira faixa do disco, “Elevation“, era a mais diferenciada até então. Provavelmente é a música mais rápida do álbum e a que fez mais sucesso. Os efeitos da guitarra são bem característicos do som da banda. A quarta faixa segue a linha política do U2. “Walk On” é dedicada a Aung San Suu Kyi, líder política da Birmânia que luta contra a o regime ditatorial do país dela. Inclusive ela está presa até hoje. Se “All That You Can’t Leave Behind” fosse uma pergunta, os versos de “Walk On” seriam a resposta: “And love is not the easy thing…. / The only baggage you can bring / Is all that you can’t leave behind”. A letra dá margem a todo tipo de interpretação, o que certamente foi proposital.

Capa do álbum

A próxima música é “Kite“, uma das melhores do U2. “Kite” é resultado da época em que o pai de Bono, Bob Hewson, estava com câncer. Ele acabou morrendo durante a Elevation Tour, o que deixou a interpretação da música ainda mais emocionante. A música seguinte, “In A Little While“, além de um riff genial, guarda uma história curiosa. Foi a última música que Joey Ramone ouviu. Era uma das músicas preferidas dele e continua sendo tocada até hoje nas turnês, embora não tenha sido lançada como single. A 7ª faixa, “Wild Honey“, tem um ar beatlemaníaco e foi tocada poucas vezes ao vivo, mas é uma música muito agradável, assim como “In A Little While”. Já “Peace On Earth” é uma música praticamente falada, na qual Bono clama por paz e questiona sua própria religiosidade.

A próxima faixa, “When I Look At The World“, está entre as minhas letras preferidas. Sempre que ouço essa música lembro de como é possível as pessoas terem tantas opiniões diferentes sobre um determinando assunto e de como elas olham para o mundo de perspectivas distintas. É uma letra que diz muito em poucas palavras. A penúltima música, “New York“, é a mais pesada do disco. É interessante que e a letra dela tenha sido alterada depois dos atentados de 11 de Setembro. A letra original dizia o seguinte: “They got the airport, city hall, concrete, asphalt, they even got the police / Irish, Italian, Jews and Hispanics / Religious nuts, political fanatics in the stew”. Nas versões ao vivo pode-se ouvir algo como “Religious nuts and political fanatics don’t belong”. “New York” prova o tanto que Edge, Adam e Larry são bons ao vivo. As versões da turnê são infinitamente superiores à versão de estúdio.

Na última música, “Grace“, Bono mostra a religiosidade característica de um filho de pai protestante e mãe católica que cresceu na Irlanda com todos os problemas sectários daquele país. Em alguns outros países, o “All That You Can’t Leave Behind” contém uma faixa extra chamada “The Ground Beneath Her Feet“. Ela foi feita para o filme e livro “O Chã Que Ela Pisa”, do corajoso autor Salman Rushdie, amigo da banda, conhecido pelo ateísmo e pela polêmica gerada pelo livro “Versos Satânicos”.

“All That You Can’t Leave Behind” não é o melhor álbum do U2, mas é uma obra inteiramente consistente mesmo fazendo uso de contrastes, tem grandes canções que perduram até hoje nos shows e viraram clássicos da banda. Mais do que isso, “All That You Can’t Leave Behind” é o disco que me fez ouvir música de uma perspectiva diferente. Esse conjunto de canções me levou a entender música como algo além de riffs legais e palavras bem colocadas. Música para mim passou a ser algo que deveria ter um propósito, uma ideia ou então não seria música boa de verdade. Quem sabe daqui a 5 ou 10 anos eu possa fazer uma resenha de outro disco que foi relevante para mim, como “A Rush Of Blood To The Head” do Coldplay, “In Rainbows” do Radiohead ou “The Fall” da Norah Jones. Até lá eles terão tempo suficiente para provarem se realmente foram e são importantes.

O que eu não posso deixar para trás – parte 1

Há dez anos atrás o U2 lançava “All That You Can’t Leave Behind”, o décimo álbum de estúdio da banda irlandesa. Na época eu não espera por esse lançamento. Eu provavelmente não sabia dele e certamente não dava a mínima. Como de costume, antes do lançamento do álbum, é lançado o primeiro single. “Beautiful Day”, a música escolhida para abrir o álbum também foi escolhida como primeira música de trabalho. O que mudou para mim? Nada. Não me recordo de ter visto o clipe de “Beautiful Day”, nem sequer de ter ouvido a música.

Na verdade, o que me chamou atenção foi o single seguinte, “Stuck in a Moment You Can’t Get Out Of”. Lembro bem que via o clipe dessa música no Top 20 da MTV (numa época em que a MTV ainda era boa ou que eu tinha saco para assistir, não sei). Eu saía correndo do cursinho para conseguir chegar em casa a tempo e conseguir ver o clipe. Poucas músicas tinham me interessado como essa. A letra, dedicada por Bono a Michael Hutchence, tinha uma densidade que era nova para mim. Eu não me identificava com as palavras, mas elas me pareciam honestas, de um amigo para outro, separados pelas drogas, depressão e consequentemente pela morte. O clipe retrata bem isso e estava muito acima da média dos outros clipes que passavam na época. É um vídeo barato, com simples efeitos de câmera, figurando apenas os 4 integrantes da banda e que termina com um singelo e simbólico aperto de mão.

Acho que nada melhor do que um dos autores para explicar a motivação da música:

It’s a row between mates. You’re kinda trying to wake them up out of an idea. In my case it’s a row I didn’t have while he was alive. I feel the biggest respect I could pay to him was not to write some stupid soppy fucking song, so I wrote a really tough, nasty little number, slapping him around the head. And I’m sorry, but that’s how it came out of me. — Bono

A mensagem não tinha nenhum significado imediato para mim, mas eu sabia que era importante de alguma forma e que poderia crescer em relevância com o tempo. Não demorou até que a música fizesse todo sentido e eu pudesse internalizá-la com a minha interpretação. Com o tempo o significado de cada palavra foi aparecendo no cotidiano, cada nota traduzia novas percepções e “Stuck in a Moment” acabou se tornando uma música necessária. Há muita coisa ali daquela época, mas o mais interessante é que ela não ficou presa caracterizando aqueles tempos. Ainda hoje ela faz sentido e é ouvida e tocada sempre que surge aquele momento.

Talvez o mais importante desse single tenha sido o legado dele. O U2 não era uma banda que eu tinha prestado atenção. Como a minha tendência é sempre me alongar, o restante da história com o “All That You Can’t Leave Behind” fica para um próximo post!

“I’m just trying to find a decent melody
A song that I can sing in my own company”

Manchas da onda verde

Se você não sabe em quem vai votar, provavelmente votará em Marina Silva. A impressão é de que todo mundo vai votar nela. De uma hora para outra parece que as pessoas descobriram que existe uma “terceira via”. Uma das coisas que me questiono é se essas pessoas realmente vão votar nela porque concordam com as suas posições e projetos ou se é porque simplesmente não tem mais ninguém em quem votar.

Marina Silva claramente é uma pessoa inteligente e capacitada, mas e quanto às ideias dela? A candidata do PV defende um plebiscito para as questões do aborto e células troncoembrionárias alegando que a população brasileira tem maturidade para discutir o assunto. Por outro lado, ela também diz que a educação se encontra num estado deplorável. Isso me parece bastante contraditório. Duvido muito que, com o nível educacional dos últimos 30 anos, tenhamos uma população com maturidade para discutir essas questões. Basta ver o que aconteceu com o referendo sobre o desarmamento.

Especificamente sobre o aborto, Marina Silva trata a questão de maneira tendenciosa. Em um dos debates, ela disse que essa questão envolve aspectos “espirituais” que devem ser debatidos. Essa é uma opinião condizente com a formação conservadora da candidata. A opinião é legítima, mas difícil de concordar. Penso que o ministro saúde, José Gomes Temporão, possui uma opinião mais sensata. Segundo ele, a descriminalização do aborto deve ser tratada como uma questão de saúde pública. O aspecto religioso é sim muito importante na nossa sociedade. Entretanto, vale lembrar que o estado é laico e as políticas públicas não devem favorecer nenhuma corrente religiosa, ainda que seja a corrente majoritária.

As pessoas finalmente descobriram Marina Silva, mas será que elas descobriram o Partido Verde? Dos muitos que agora votarão nela, a esmagadora maioria certamente não votará em um deputado federal do PV. Portanto, já que o partido não tem uma coligação, então com quem governará? Será muito difícil obter representabilidade e governabilidade num governo de um só partido. Marina se diz a pessoa capaz de unir PSDB e PT, mas já sabemos que ela perdeu uma grande oportunidade, já que estava no PT e preferiu se filiar ao PV em vez de ser fiel e lutar para modificar o que há de errado no seu antigo partido. Assim como Lula não era novidade, ela também não é. Assim como o PSDB abriga Álvaro Dias e o PT abriga José Dirceu, o PV abriga políticos de intenções contestáveis como Fernando Gabeira e “Doutor” Antônio Roberto.

Nem de longe Marina Silva é um desastre, mas também não é a salvadora da pátria, muito menos representa uma grande mudança de pensamento.

A bananice do voto nulo

Volta e meia vejo alguém recomendando o voto nulo, seja nessas eleições ou em qualquer outra. Particularmente, não vejo qual objetivo essas pessoas estão tentando atingir. É do conhecimento geral que no Brasil apenas são levados em conta os votos válidos, ou seja, votos nulos e brancos são excluídos da conta. É bem provável que a urna eletrônica sequer conte o voto nulo. Portanto, quem pensa em votar nulo para “protestar” está fazendo algo completamente inútil, já que no final das contas nunca ficamos sabendo exatamente quantos votos foram anulados. Mesmo que a urna contabilizasse isso, não faria muita diferença, pois a nossa legislação eleitoral não estipula nenhum limite máximo de votos nulos para que haja novas eleições ou algo assim. Na prática, se todo mundo anular o voto e eu escolher um candidato, então ele será eleito.

Outras pessoas dizem que anulam o voto porque não querem ter a responsabilidade de escolher alguém ruim. Isso é pior ainda. É basicamente tirar o corpo fora para se isentar de qualquer cobrança depois. Além disso, elas não tem o trabalho de procurar se informar. É muito cômodo e intelectualmente desonesto.

Se você acha um absurdo ter que comparecer à seção eleitoral, então pelo menos vá lá e vote em um candidato a favor do voto facultativo. Quem sabe nas próximas eleições você possa ficar em casa dormindo. Apoiar o voto facultativo com um limite máximo de abstenção é totalmente legítimo e objetivo. A bananice está em se isentar em um sistema que ignora o direito de não escolher, deixando que outros escolham por você. Ainda vale a pena lembrar que há pouco tempo vivíamos sob uma ditadura e muitos foram mortos e torturados defendendo as liberdades que temos hoje. A democracia não é para impedir que os ruins ganhem, mas sim para evitar que eles fiquem no poder para sempre.

Há um mês atrás no Rio de Janeiro…

Não cheguei a postar nada aqui na época do show do Coldplay e ao que parece, pelo no calendário, já faz um mês que fui ao Rio de Janeiro. Não farei nenhum juízo de valor sobre o show pois sou altamente suspeito para falar, mas nesse vídeo que gravei a partir da grade de uma das passarelas, vocês podem conferir um pouquinho do que foi a emoção de estar na Praça da Apoteose com o Coldplay e mais 38 mil coldplayers, incluindo a Senhora Ellen Andrade, suas batatas Ruffles e um par de Havaianas recém comprados pela mesma.


The Hardest Part + Postcards From Far Away

“I wonder what it’s all about
Everything I know is wrong
Everything I do it just comes undone
And everything is torn apart
Oh and it’s the hardest part
That’s the hardest part”