Há alguns meses minha namorada e eu começamos a planejar uma viagem. A intenção inicial era que eu fosse visitá-la em Évora, Portugal, onde ela estaria finalizando um intercâmbio em junho deste ano. Aproveitaríamos, a princípio, para conhecer as belezas da Península Ibérica, aproveitando que já estaríamos por lá mesmo. Madri, Porto, Barcelona e Coimbra foram alguns dos destinos que cogitamos.

Esse era o conceito, até que ela disse, em uma conversa sobre potenciais outros destinos, que gostaria de conhecer Auschwitz. Eu disse que também gostaria, já que não tive a oportunidade de ir quando estudei fora. Ponderei, entretanto, que isso não se encaixava no conceito inicial da viagem e que financeiramente não era viável viajar entre Portugal, Espanha e Polônia. Eis que, de volta à prancheta e depois de muitas consultas a sites de companhias aéreas low cost, chegamos a um novo roteiro. A nova viagem incluiria uma breve visita a Évora e a Praia da Marinha, em Portugal, para recarregarmos as energias, depois iríamos atrás dos problemas do mundo na Alemanha, Polônia e Holanda, aproveitando assim a proximidade geográfica desses países e o nosso desejo de seguir os rastros do holocausto.

A viagem incluiu, portanto, passeios como a Topografia do Terror e o Memorial dos Judeus Mortos na Europa em Berlim, a Casa de Anne Frank em Amsterdã, a Fábrica de Oskar Schindler na Cracóvia e, principalmente, os campos de concentração Auschwitz I e Auschwitz-Birkenau. A viagem romântica do casal que não se via há 5 meses tinha se tornado quase uma pesquisa de campo sobre as atrocidades do nazismo. Mas, claro, isso é a nossa cara. Essa é uma publicação sobre o que vocês não viram nas nossas contas do Instagram.

Vista dos trilhos de trem e da torre de observação do campo Auschwitz-Birkenau

Auschwitz foi o ponto central da viagem. Um dos principais locais da Europa ocupada para o qual o governo nazista enviava judeus, homossexuais, ciganos e outras minorias para que o trabalho os libertasse. O trabalho não os libertou e aqueles considerados inaptos para escravidão foram dizimados em câmaras de gás e depois tiveram seus corpos incinerados nos crematórios logo ao lado. É indescritível a sensação de visitar o museu e entrar numa dessas câmaras de gás. O silêncio, o entreolhar dos visitantes desconhecidos, a tentativa vã de captar pelo menos uma fração do sofrimento dos que passaram por ali e perceber que o grande desconforto que se sente, não chega nem perto disso.

Antes de chegar a este ponto, no entanto, a visita proporciona reflexões igualmente válidas. Em umas das paredes de um dos blocos estavam os sinais com os quais os prisioneiros eram identificados. Prisioneiros políticos recebiam em suas roupas um triângulo vermelho; homossexuais, um triângulo rosa; e judeus, uma estrela amarela. Tudo funcionava sob um estrito esquema de identificação e controle por parte dos oficiais nazistas. No museu também há pilhas de óculos, malas e sapatos que foram recuperados dos campos após a libertação pelos soviéticos em 1945. No entanto, o que mais me chocou foram as enormes pilhas de cabelos retirados das prisioneiras que eram utilizados para a confecção de tecidos. Vivas ou mortas, seus cabelos eram retirados para se tornarem tecidos utilizados pelos nazistas.

Outra parte comovente da visita ao museu é passar pelos blocos onde os nazistas conduziam experimentos nos prisioneiros. Eles eram infectados com vários tipos de doenças, com o intuito de se testar potenciais imunizações, assim como também faziam testes de técnicas de esterilização que serviriam aos propósitos da limpeza étnica em curso. A crueldade sem fim chegava ao ponto de crianças serem assassinadas depois de experimentos para serem então dissecadas e virarem objeto de estudo.

A todo momento uma pergunta passava por nossas cabeças: como isso foi acontecer? Nos questionávamos, a princípio, sobre quais seriam as origens do ódio dos nazistas pelos judeus. Num grau mais amplo: o que leva os povos a se odiarem? O que na essência teria levado a isso tudo? Chegamos à conclusão de que não há um explicação clara. Afinal de contas, como explicar lá no fundo o preconceito contra o povo negro, só pelo fato das pessoas nascerem com tonalidades de peles diferentes? Como explicar lá no fundo o preconceito contra homossexuais, só pelo fato das pessoas transarem com outras pessoas do mesmo sexo? Enfim, à parte das formulações políticas e religiosas, não há como explicar.

Parte do muro de Berlim na Topografia do Terror

Num segundo momento, nos questionamos sobre como uma sociedade chegou ao ponto de apoiar e se organizar para criar um Estado de guerra constante, ao mesmo tempo que montava uma estrutura sistemática de assassinato em massa. Nesse ponto nos recordamos do que aprendemos na Topografia do Terror, em Berlim. Entre a Primeira e a Segunda Guerra Mundial, a cidade de Berlim se encontrava em meio a República de Weimar: uma democracia representativa num ambiente de recuperação do primeiro conflito armado. Entretanto, com a crise econômica desencadeada pelo crash da bolsa de Nova Iorque em 1929, essa recuperação foi abortada. Somado à crise econômica e altos índices de desemprego, a cidade e o país afundavam também nas águas da corrupção, criando o cenário perfeito para o surgimento de um salvador da pátria. Um escolhido. Um messias. Alguém que retiraria o país da crise econômica com o vigor de suas ações. Alguém que acabaria com a corrupção intempestivamente. Parece familiar, não é mesmo? É triste ver que, em maior ou menor grau, os erros se repetem. Pela história e pelo presente.

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