O que eu não posso deixar para trás – parte 2

No post anterior já contei que descobri o álbum “All That You Can’t Leave Behind” do U2 através da música “Stuck in a Moment You Can’t Get Out Of”. Neste post darei as minhas impressões sobre as outras faixas do disco.

Depois de uma pequena novela para comprar o CD, percebi que o primeiro single, “Beautiful Day“, tinha passado despercebido por mim. O mais interessante dessa música é a volta da Gibson Explorer do Edge. Essa é uma guitarra característica do início da banda, mas que se encaixou muito bem no novo som. A terceira faixa do disco, “Elevation“, era a mais diferenciada até então. Provavelmente é a música mais rápida do álbum e a que fez mais sucesso. Os efeitos da guitarra são bem característicos do som da banda. A quarta faixa segue a linha política do U2. “Walk On” é dedicada a Aung San Suu Kyi, líder política da Birmânia que luta contra a o regime ditatorial do país dela. Inclusive ela está presa até hoje. Se “All That You Can’t Leave Behind” fosse uma pergunta, os versos de “Walk On” seriam a resposta: “And love is not the easy thing…. / The only baggage you can bring / Is all that you can’t leave behind”. A letra dá margem a todo tipo de interpretação, o que certamente foi proposital.

Capa do álbum

A próxima música é “Kite“, uma das melhores do U2. “Kite” é resultado da época em que o pai de Bono, Bob Hewson, estava com câncer. Ele acabou morrendo durante a Elevation Tour, o que deixou a interpretação da música ainda mais emocionante. A música seguinte, “In A Little While“, além de um riff genial, guarda uma história curiosa. Foi a última música que Joey Ramone ouviu. Era uma das músicas preferidas dele e continua sendo tocada até hoje nas turnês, embora não tenha sido lançada como single. A 7ª faixa, “Wild Honey“, tem um ar beatlemaníaco e foi tocada poucas vezes ao vivo, mas é uma música muito agradável, assim como “In A Little While”. Já “Peace On Earth” é uma música praticamente falada, na qual Bono clama por paz e questiona sua própria religiosidade.

A próxima faixa, “When I Look At The World“, está entre as minhas letras preferidas. Sempre que ouço essa música lembro de como é possível as pessoas terem tantas opiniões diferentes sobre um determinando assunto e de como elas olham para o mundo de perspectivas distintas. É uma letra que diz muito em poucas palavras. A penúltima música, “New York“, é a mais pesada do disco. É interessante que e a letra dela tenha sido alterada depois dos atentados de 11 de Setembro. A letra original dizia o seguinte: “They got the airport, city hall, concrete, asphalt, they even got the police / Irish, Italian, Jews and Hispanics / Religious nuts, political fanatics in the stew”. Nas versões ao vivo pode-se ouvir algo como “Religious nuts and political fanatics don’t belong”. “New York” prova o tanto que Edge, Adam e Larry são bons ao vivo. As versões da turnê são infinitamente superiores à versão de estúdio.

Na última música, “Grace“, Bono mostra a religiosidade característica de um filho de pai protestante e mãe católica que cresceu na Irlanda com todos os problemas sectários daquele país. Em alguns outros países, o “All That You Can’t Leave Behind” contém uma faixa extra chamada “The Ground Beneath Her Feet“. Ela foi feita para o filme e livro “O Chã Que Ela Pisa”, do corajoso autor Salman Rushdie, amigo da banda, conhecido pelo ateísmo e pela polêmica gerada pelo livro “Versos Satânicos”.

“All That You Can’t Leave Behind” não é o melhor álbum do U2, mas é uma obra inteiramente consistente mesmo fazendo uso de contrastes, tem grandes canções que perduram até hoje nos shows e viraram clássicos da banda. Mais do que isso, “All That You Can’t Leave Behind” é o disco que me fez ouvir música de uma perspectiva diferente. Esse conjunto de canções me levou a entender música como algo além de riffs legais e palavras bem colocadas. Música para mim passou a ser algo que deveria ter um propósito, uma ideia ou então não seria música boa de verdade. Quem sabe daqui a 5 ou 10 anos eu possa fazer uma resenha de outro disco que foi relevante para mim, como “A Rush Of Blood To The Head” do Coldplay, “In Rainbows” do Radiohead ou “The Fall” da Norah Jones. Até lá eles terão tempo suficiente para provarem se realmente foram e são importantes.

2 thoughts on “O que eu não posso deixar para trás – parte 2

  1. Cara, all that you can’t leve behind é o melhor disco do U2 para mim. Embora seja muito difícil selecionar o melhor de uma lenda.

    Excelentes comentários.

    One step close to knowing tb foi feita em homenagem ao pai dele e tem uma histório bem interessante, pois veio de uma frase do Noel Gallahger .

  2. Olá Jeane! Realmente é um disco acima da média!

    É verdade, lembro do Bono comentando que One Step Closer to Knowing partiu de uma conversa com Noel Gallager sobre a doença do pai dele.

    Obrigado pelo comentário!

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