Manchas da onda verde

Se você não sabe em quem vai votar, provavelmente votará em Marina Silva. A impressão é de que todo mundo vai votar nela. De uma hora para outra parece que as pessoas descobriram que existe uma “terceira via”. Uma das coisas que me questiono é se essas pessoas realmente vão votar nela porque concordam com as suas posições e projetos ou se é porque simplesmente não tem mais ninguém em quem votar.

Marina Silva claramente é uma pessoa inteligente e capacitada, mas e quanto às ideias dela? A candidata do PV defende um plebiscito para as questões do aborto e células troncoembrionárias alegando que a população brasileira tem maturidade para discutir o assunto. Por outro lado, ela também diz que a educação se encontra num estado deplorável. Isso me parece bastante contraditório. Duvido muito que, com o nível educacional dos últimos 30 anos, tenhamos uma população com maturidade para discutir essas questões. Basta ver o que aconteceu com o referendo sobre o desarmamento.

Especificamente sobre o aborto, Marina Silva trata a questão de maneira tendenciosa. Em um dos debates, ela disse que essa questão envolve aspectos “espirituais” que devem ser debatidos. Essa é uma opinião condizente com a formação conservadora da candidata. A opinião é legítima, mas difícil de concordar. Penso que o ministro saúde, José Gomes Temporão, possui uma opinião mais sensata. Segundo ele, a descriminalização do aborto deve ser tratada como uma questão de saúde pública. O aspecto religioso é sim muito importante na nossa sociedade. Entretanto, vale lembrar que o estado é laico e as políticas públicas não devem favorecer nenhuma corrente religiosa, ainda que seja a corrente majoritária.

As pessoas finalmente descobriram Marina Silva, mas será que elas descobriram o Partido Verde? Dos muitos que agora votarão nela, a esmagadora maioria certamente não votará em um deputado federal do PV. Portanto, já que o partido não tem uma coligação, então com quem governará? Será muito difícil obter representabilidade e governabilidade num governo de um só partido. Marina se diz a pessoa capaz de unir PSDB e PT, mas já sabemos que ela perdeu uma grande oportunidade, já que estava no PT e preferiu se filiar ao PV em vez de ser fiel e lutar para modificar o que há de errado no seu antigo partido. Assim como Lula não era novidade, ela também não é. Assim como o PSDB abriga Álvaro Dias e o PT abriga José Dirceu, o PV abriga políticos de intenções contestáveis como Fernando Gabeira e “Doutor” Antônio Roberto.

Nem de longe Marina Silva é um desastre, mas também não é a salvadora da pátria, muito menos representa uma grande mudança de pensamento.

2 thoughts on “Manchas da onda verde

  1. Para alimentar o debate…
    Já vi declarações da Marina no início da campanha afirmando justamente que a questão do aborto era visto por ela como uma questão de saúde pública e que tinham mais dimensões sobre o assunto que precisavam de discussão, não lembro de falas sobre religião. Sobre a questão da educação e a maturidade para se discutir o assunto, IMHO, ela diz sobre a educação pública, que no Brasil é de primeiro e segundo grau. E acho difícil alguém nesta faixa discutir sobre questões ligadas ao aborto. IMHO novamente, não vejo as coisas como contraditórias, mas concordo no ponto que ela não é novidade ou salvação, política séria é uma coisa pé no chão e que depende de aliados políticos, infelizmente.
    Abraço.

  2. Olá Djavan! Muito obrigado pelo comentário!

    A fala sobre religião foi referente ao debate da RedeTV. Com relação ao nível educacional, eu penso que a questão é mais ampla do que a educação pública, que além de ser de primeiro e de segundo grau, também engloba o nível universitário. Na minha opinião a Marina sabe que no conjunto da população o nível educacional é ruim, mesmo no ensino particular. O problema é que isso não é de hoje e portanto não cria um ambiente adequado para se debater amplamente questões tão complexas.

    Assim como o seu comentário, a candidatura da Marina é uma oportunidade para exercitar a democracia, o que importa é votar livremente!

    Abraços!

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