Achado (não) é roubado

Em um post anterior abordei como a pequena e a grande corrupção do dia a dia deterioram as relações pessoais, econômicas e profissionais no Brasil. Agora é a vez de contar o que percebi sobre o mesmo assunto por meio de uma situação bastante específica em outro país.

Não há dúvida de que no Brasil impera a “Lei de Gérson” para as pequenas e as grandes situações das quais se pode tirar vantagem indevidamente. Com relação a crimes do colarinho branco, peculato e lavagem de dinheiro, há muitos países tão ou mais corruptos como o nosso, mas nas pequenas coisas do cotidiano a diferença parece ser mais discrepante.

Em janeiro de 2011 eu estava caminhando pelas de ruas de Tempe, nos Estados Unidos, com um amigo da Nicarágua procurando por um lugar para jantar. Foi então que me deparei com uma loja de livros usados. Já era um pouco tarde e a loja estava fechada, porém havia vários livros numa estante do lado de fora. Sim, os livros estavam lá organizados para quem quisesse pegar, juntamente com uma nota dizendo que, se alguém estivesse interessado em um deles, era para deixar o dinheiro por debaixo da porta.

Comentei com o meu amigo que deixar livros disponíveis daquela forma seria impensado no Brasil. Obviamente não sobraria nenhum. Todos seriam pegos sem deixar nenhum centavo por debaixo da porta. “Achado não é roubado” certamente seria uma boa racionalização para desculpar o ato. A educação no Brasil é falha tanto sob o aspecto do ensino, quanto sob o aspecto cultural. O problema do ensino pode ser resolvido com investimentos em escolas, professores e metologias, mas no aspecto cultural a solução é ainda mais difícil e demorada. Provavelmente daqui a 50 anos teremos uma população melhor capacitada, mas ainda sem educação. Para resolver o problema cultural precisaríamos de várias gerações e uma reengenharia em como nossa sociedade funciona.

Recomendo fortemente a palestra do Fábio Barbosa no TEDxSP 2009 sobre “Ir bem em um país que vai mal”. Ele aborda principalmente o caso brasileiro, mas toca também em como a própria sociedade norte-americana sofre dos mesmos problemas. Entretanto, no caso deles, ao invés de isso se manifestar nas pequenas coisas do dia a dia como a compra de um livro, frequentemente acontece na falta de consciência na forma como se fazem negócios. Basta lembrar a crise iniciada em 2008, resultado da falta regulação do mercado financeiro, da ganância e especulação. O fato é que tanto aqui como lá, não pode é ficar a certeza da impunidade. Embora a intensidade seja diferente, um livro ou um milhão de dólares roubados, a canalhice é a mesma. As sociedades devem se organizar para primeiramente evitá-la e em segundo lugar puni-la. Entretanto, parece que o Brasil ainda está longe do ideal tanto na punição, mas principalmente na prevenção. Transparência.

Category(s): Pessoal, Português

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