Amor que salva a corrupção

Menos de um mês para as eleições municipais e não é de hoje que os candidatos estão poluindo nossas ruas e nossos ouvidos. Além disso, é só mais uma época em que os cidadãos corruptos reclamam de seus políticos igualmente corruptos. Um bom exemplo disso é uma das minhas personagens políticas favoritas: Weslian Roriz. Quem não se lembra dela?

Obviamente ninguém se lembra de Weslian. Ela é mais conhecida por ser a mulher de Joaquim Roriz, ex-governador do Distrito Federal, que depois de ser acusado de corrupção desistiu de sua candidatura e a empurrou sem paraquedas para substituí-lo na campanha eleitoral. O caso foi amplamente noticiado devido a total falta de traquejo político de Weslian, que em meio a sua confusão mental em um debate, nos presenteou com sua famosa frase: “Eu quero defender toda aquela corrupção.”

O aspecto interessante de Weslian Roriz não é ela em si, muito menos sua cômica performance política, mas sim o fato haver várias “weslians” por aí. Infelizmente vivemos num país no qual a leniência com atitudes temerárias é geral. Weslian é um clichê. É a mulher que defende o marido corrupto haja o que houver. Na verdade ela poderia ser qualquer mulher que defenda o amigo, namorado, amante, chefe, irmão ou correligionário. Sem dúvida ela poderia também ser um homem que faz vistas grossas para a esposa que sorrateiramente desvia dinheiro público para complementar o “orçamento familiar”.

Fatos como esses podem ser encontrados em maior ou menor grau no nosso dia a dia, mas Weslian nos deixou uma lição: o amor está acima de tudo. Pelo menos o que ela chama de amor. Não há dúvidas de que ela ama Joaquim. O amor de Weslian é vazio de ética, coerência e comprometimento com o restante da sociedade. Para ela não importa quantas pessoas Joaquim tenha deixado na mão durante sua carreira. Weslian não tem qualquer empatia por elas. Talvez, por desinteresse, ela nem soubesse das mutretas do marido. O fato é que ficar sabendo pela imprensa de tudo o que acontecia debaixo do seu nariz não fez diferença. Também não fez diferença a impugnação da candidatura dele com base na Lei da Ficha Limpa. Dentro de casa, o ex-governador pode até mesmo ser um bom marido, o que não o dissocia do homem desonesto que é fora dela. Na verdade, o nobre Joaquim deve ser um homem incompreendido pela sociedade. As acusações certamente são invencionices de seus adversários políticos e do Tribunal Superior Eleitoral. Entretanto, caso sejam verossímeis também não importa. Para Weslian, ele já deve ser um homem refeito. Afinal de contas todo mundo merece uma 13ª chance na vida. Roriz cedeu sua candidatura para a mulher de maneira relutante. Isso porque ele é o clichê análogo a Weslian. Homens como ele, num primeiro momento, negam veementemente o erro, dizem que não foi bem assim, que não é o que parece. Somente desistem ou pedem desculpas quando são pressionados ou instruídos para tal. Sacrificam o ego no curto prazo para inflá-lo no longo prazo, mas ainda são incapazes de reconhecer os erros por si sós.

Como um de nossos piores aspectos culturais, a corrupção permeia e deteriora as relações pessoais, profissionais, econômicas e políticas. Weslian seguramente não sabe que corrupção passiva também é crime, que ela é tão errada quanto ele, que não é difícil dizer quem ela é pela análise de quem ele é. O casal Roriz é só uma versão exacerbada do que acontece por todo país. São uma versão do sujeito que não cumpre com suas obrigações profissionais, do camarada que coloca uma “TV a gato”, do “cidadão” que joga lixo na rua, do hipócrita que reclama dos políticos mas não olha para sua própria corrupção. Como pessoas assim terão moral para educar os próprios filhos? Não sei, mas eles o farão mesmo assim. Os Roriz conseguiram. Felizmente vivemos numa democracia e, seja na nossa vida pessoal ou política, podemos escolher tornar essas pessoas partes da nossa vida ou não. Bom voto!

Category(s): Pessoal, Português

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

 

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>